quinta-feira, 10 de novembro de 2011
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
Le Suicidal Feeling - Parte 5
Era manhã quando levantei com a indisposíção entranhada no corpo. Havia sido uma noite longa. A cama parecia lutar com o meu sono e travei incontáveis batalhas com os lençois para finalmente fechar os olhos e deixar que os sonhos me carregassem para longe dali. Enquanto eu dormia, o coração batia inquieto no peito.
A manhã esgueirou-se pelo céu ainda nublado de outono. Nesse dia, alguns raios de sol pediram passagem por entre as nuvens para atingir as janelas do meu quarto e banhou-me com um calor fraco. Peguei o celular e consultei a hora. O relógio marcava 7:30. Respirei fundo a ponto de quase rasgar os pulmões e me desvencilhei das cobertas que prendiam o meu corpo. Ainda sentia o efeito das doses de alcool que bebi na noite passada. Evitei encarar-me no espelho.
A higiene matinal foi feita automaticamente. Meu corpo agia sozinho enquanto os meus pensamentos rumavam de encontro a mesma imagem que vinha me assombrando durante as ultimas semanas que se seguiram. O nó foi atado em minha garganta, mas dessa vez eu não me permiti chorar. Deveras o tempo que escorreu pelas minhas mãos não podia ser disperdiçado. Havia tanta vida lá fora, por que eu passei a resumir a minha entre as quatro paredes do meu quarto?
Desci as escadas, um pé após outro, e decidi sair para contemplar-me com uma vaga caminhada matinal. A brisa fria acariciou meu corpo enquanto os finos raios solares tocaram-me numa saudação de boas vindas para a vida. As ruas, já habitadas pelas habituais pessoas que pulavam da cama assim que o sol aparecia, não estava deserta. Virei na esquina onde sabia ter uma padaria. Necessitava alimentar-me.
O lugar era aconchegante quando cheguei lá. Há muito tempo não me permitia ir ali e tomar um café sem a preocupação com os ponteiros do relógio que não estavam ao meu favor. Fui nas prateleiras a fim de apanhar algumas bolachas para acompanhar meu café.
Foi quando eu a vi.
Me perguntei se a conhecia até me dar conta de que era uma desconhecida. Os cabelos loiros e curtos estavam presos parcialmente. Estava submersa na dúvida de levar bolachas integral ou tracional. Enquanto isso, eu me rendia a observá-la por trás dos óculos escuros que me ocultavam as olheiras. Fingi apanhar algumas caixas de biscoito e o olhar dela se arrastou até mim. Me perdi por segundos no verde de sua íris, até seu corpo passar por mim e eu a ver indo embora. Meu olhar a seguiu até a saída da padaria.
Um sorriso esgueirou-se em meus lábios e eu já havia desistido de tomar o café. Paguei pelas bolachas, pedi um Cappucicno e rumei de volta para casa, ainda vagando as ruas com o olhar no intuito de encontrá-la. Voltei pra casa com o desejo intimo de reencontrá-la.
Isso não tardou a acontecer.
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
E a história se repetiu. Ela estava tão cansada. Cansada de sentir a mesma coisa, contemplar as mesmas
cicatrizes, ver a mesma imagem refletida no espelho e sentir o mesmo gosto das lágrimas que descansavam em seus lábios após escorrer pela sua face.
O ambiente era o mesmo. Preferia deixar-se na escuridão de seu quarto, onde seus olhos mal conseguiam distinguir os objetos que ali existiam. O único ruído que era ouvido vinha do relógio, quando os segundos se arrastavam noite adentro. A melodia triste ainda tocava baixinho enquanto ela chorava após ferir-se. Parecia estar viciada em cometer tal crime contra si.
Eram sempre as mesmas palavras: lembranças, dor, saudade, tristeza... Tantas vezes repetidas para diferentes pessoas. Nenhuma delas parecia compreender o significado delas e no quanto afetada ela estava por tais palavras fazerem parte do seu repertório. Perguntou-se se ela mesma tinha permitido a adição delas.
Estava cansada de não conseguir manter-se no eixo. Cansada de sentir falta da presença das pessoas erradas e de sofrer por não estar perto das pessoas certas. Cansada de olhar as mesmas fotográfias incontáveis vezes apenas para sentir-se viva. Agarrar-se ao passado apenas para não ter de olhar pra frente e se dar conta de que seus planos não saíram conforme ela queria.
Já não sabia como esconder suas marcas. Já implorava intimamente que as pessoas não reparassem na dor gravada em seus braços e na tentativa de fuga estampada em seu pulso. Quantas vezes teria de cobrir as olheiras que se instalaram ali deveras o anseio de adormecer? Adormecer e sonhar. Adormecer e não sonhar. Adormecer para não acordar nunca mais.
O que mais lhe cansava a mente era a ausência momentânea de sua agonia. Estranhava estar bem e questionava o que tinha lhe causado tamanha satisfação interior. As vezes, conviver com os poucos momentos de plenitude que lhe era cedido parecia ser algo de grande dificuldade.
Sua vida parecia um grande teatro. Seu mundo parecia se alto destruir com ela dentro. Suas máscaras já não lhe serviam no rosto e a alegria havia esquecido o endereço do seu coração. Mesmo assim, permaneceu ali. Estava cansada de lutar, mas preferiu não desistir de si.
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
Le Suicidal Feeling - Parte 4
Já fazia três dias de chuva constante e minha cabeça exibia o cansaço de lembrar a imagem dela. Não conseguia assimilar a ausência repentina de sua companhia. Ou o modo como ela passou a me evitar no trabalho. Nossos olhares já não se cruzavam mais. Suas palavras já não eram dirigidas para mim e o essencial para ser dito era atirado aos meus pés. Parecia ironia, mas em minha casa, ainda havia vestigios de sua passagem em minha vida.
Percorri cada um dos comodos mais uma vez, sentindo as lembranças invadirem-me a cabeça e o passado sussurrar em meu ouvido o quanto eu sentia falta do que a ele pertencia. Evitava o máximo possível deixar com que as recordações me habitassem por mais de cinco minutos, mesmo não obtendo sucesso algum em tal feito.
Acendi um cigarro depois de juras feitas para mim mesma de nunca mais fumar. A penumbra habitava o cômodo da sala. Preferi mantê-la daquela forma. Me sentia melhor quando a escuridão me fazia companhia. Sentei no chão, encostada na parede fria, e traguei, deixando a nicotina envenenar o meu intimo como antes. Guardei uma foto nossa dentro de um livro para não ter que contemplá-la sempre. Só quando a vontade surgisse. Os pertences dela foram escondidos no intimo do meu armário. Preferi mantê-la viva ali na esperança de seu retorno.
Enquanto terminava o cigarro, rendi-me a fitar o telefone na esperança que ela ouvisse meus pensamentos a longa distância e me ligasse. Percebi logo em seguida que passei a duas semanas fazendo isso. Observando o telefone e esperando ver o nome dela no visor. Ou então me contendo para não telefoná-la só para ouvir a voz rouca que tanto me fascinava.
Não sabia mais lidar com a sua ausência. Precisava dela e do seu acalento. A pergunta era se eu a teria de volta.
terça-feira, 25 de outubro de 2011
"Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços meu pecado de pensar."
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Slow Life
O dia se espreguiçou no horizonte, anuciando que já amanhecera. Ela abriu uma fresta das cortinas para ver se valeria a pena abandonar a segurança de seu quarto para render-se ao mundo lá fora. As ondas do mar choravam quando atingiam a costa, os pássaros piavam seu canto matinal enquanto a brisa morna balançava a folhagem dos coqueiros. Tudo parecia bem.
Arrastou-se até a cozinha e contemplou a mesa vazia. O resto do jantar da noite anterior ainda jazia sobre ela. Resolveu apenas alimentar-me com torrada e frutas frescas, aquelas que trouxe antes de buscar abrigo naquele chalé à beira mar com o intuito de desfrutar de sua própria companhia. Parecia a mais apropriada na situação em que se encontrava.
Vestiu o moletom largo e surrado, nunca conseguiu livrar-se dele, por cima da camisola rendada e encaminhou-se para o lado de fora do chalé. Assim que abriu a porta, o sol sorriu pra ela. Despejou sobre seu corpo um calor que já não sentia a muito tempo. Sua luz quase cegou-lhe ao contemplá-lo. Ela não se importou.
Segurando as torradas e as frutas enroladas numa toalha, deu alguns passos até seus pés afundarem na areia branca da praia e o vento marinho lhe atingir a face. Sentou-se ali. Diante dos seus olhos, a tamanha magnetude do oceano. Buscou o fim do horizonte, até onde sua visão pôde ir e se sentiu minuscula diante de tanta vastidão.
Ali, naquela praia deserta, os problemas não a encontraram. Sua dor adormecera. Suas lembranças não mais a assombravam. Sua presença agora era prazerosa pra ela mesma. Comeu seu café da manhã. Permaneceu a manhã inteira ali, desfrutando de sua plenitude.
domingo, 16 de outubro de 2011
Naquela manhã, ela levantou com o sentimento de que deveria permanecer ali, imersa em sua própria solidão. Já não suportava mais tentar sorrir quando sua alma era assassinada pela dor ambientada nela.
A vida carregou-a pelos punhos, a pulso. Ela, sem forças para lutar contra aquilo, apenas aceitou de mau grado a única opção imposta a ela. Seguiu em frente, representando aquele falso teatro de menina crescida enquanto seu mundo se alto destruia a cada segundo. Com ela dentro.
Caminhou. Foi de encontro a sua rotina cansativa, onde expressões de uma falso bem estar foram postas em seu rosto para que tudo parecesse normal. Até quanto tempo ela suportaria? Evitou pensar.
Decidiu fazer daquele ser sua nova pessoa. Desejou intimamente refugiar-se por trás daquela personalidade forte que era temporariamente ela. Tentou. Fracassou. Assim que se viu perdida, fugiu. Buscou abrigo naquele cubiculo frio, onde a única companhia que possuia era a dela mesma, assombrada por pensamentos que dilaceravam sua sanidade.
Sua máscara caiu junto com as lágrimas que conteve a tanto custo durante o dia. Naquele momento, estava a mercê de seu próprio sofrimento. Não conseguiu retornar. Desaprendeu a sorrir. Permaneceu ali.
Sozinha.
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