Páginas

sábado, 16 de março de 2013

scared



Ventava lá fora. O céu estava tomado por nuvens cinzentas que traziam consigo um presságio de chuva.  Meu quarto estava imerso numa penumbra infinita. Uma grossa camada de poeira habitava a mobília do ambiente. Fitei, sobre o criado mudo, o sanduiche que eu desistira de comer. Depois de uma hora, totalmente frio, percebi que aquela refeição não entraria nem com promessa.

Sucumbi à solidão daquele recinto, evitando meus pensamentos e tomando o controle sobre tudo o que me habitava. Encarei-a longamente à distância. Ela brilhava. Parecia sorrir para mim. Acenava longamente e chamava o meu nome. Deitei na cama enquanto algo preso em mim implorava pela quebra da abstinência. Costumava achar aquilo normal. A gente não sabe se tem um coração até ele acelerar. A gente não sabe se tem um estômago até ele protestar de fome. Eu só sabia que estava viva quando aquela fina língua de sangue escorria pelo meu braço. Minhas lágrimas cessavam. Eu estava viva, afinal, mortos não sangram.

Respirei fundo enquanto atavam algo em meu peito com nó de marinheiro. A chuva começava a martelar nas vidraças da casa. Puxei as cobertas para junto do meu corpo e calei meu íntimo.

- Está sozinha? – Eu o conhecia. Vi sua silhueta recortada pela luz que adentrava pela fresta da janela. Os cabelos já atingiam os ombros. Sentou-se na estreita poltrona de canto e me observou longamente. – Está sozinha? – Perguntou novamente.

- Não, estou comigo mesma. – Respondi.

- Que bela companhia, não? – ele aplaudiu e cuspiu a ironia na minha face.

- Não importa.

- Você está sozinha. – Ele já afirmava. Rumou até mim e afagou os meus cabelos. – Mas eu estou aqui.

- Que bela companhia, não? – Ataquei. Senti suas mãos segurarem as laterais de minha cabeça e lágrimas brotarem dos meus olhos. Meu coração parou momentaneamente. Meus lábios deixaram escapar o som choroso daqueles que não suportam mais sofrer. Encolhi-me na cama e ele sumiu. Tomei a navalha em minhas mãos e ele reapareceu. Eu estava ali, ele não estava. Eu não estava e ele reaparecia. Ele não era eu. Eu era ele. Ele era meu inconsciente.

- Eu posso ver os seus sonhos, minha cara. E eu posso sentir o seu transtorno. Eu consigo tocar a sua dor e ela me pertence. - Sussurrou em meus ouvidos. – Eu sei que seu celular não toca. Eu sei que seu coração se desmancha toda noite. Eu sei que você reza implorando para ter forças e não desistir. Mas suas forças me pertencem e eu decido quando você vai tê-la de volta ou não.

De repente, um clarão se instalou no quarto. Senti a brisa e o cheiro de terra molhada que ela emanava. Quando pousou, o cheiro de páginas de livros invadiu o ambiente. Suas grandes asas fecharam-se e pude ver em sua expressão a tranquilidade que emanava. O cabelo ruivo e cacheado caia sobre seus ombros e terminavam em seus joelhos. Se aproximou de mim lentamente e beijou minha testa.

- Está na hora de dormir. – Minhas pálpebras pesaram e a ultima coisa que vi foram seus braços agarrando toda aquela névoa negra e levando-a consigo. Agradeci mentalmente à Moira e fechei os olhos, rendendo-me ao sono. Quando acordei de manhã, nada parecia ter acontecido. 

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Reflexo


Quando girei a chave, escutando a porta se trancar, as lágrimas possuíram meus olhos. Escorreguei lentamente pela parede azulejada e fria até o chão me abraçar. Uma sensação de ódio se instalava em meu corpo. Desejei mudar e sucumbir as expectativas dela. Desejei encontrar a perfeição em mim.

Desejei, em seguida, simplesmente ser aceita. Poder encarar a mim mesma e me satisfazer com o que contemplo. Me satisfazer com o que sou sem haver a necessidade de uma busca incansável por algo que nunca serei capaz de alcançar.

Respirei fundo na tentativa de sessar minhas lágrimas, entretanto, elas caiam sem pudor. Eu já soluçava. O conhecido sentimento de solidão se apoderando do meu ser. A vontade de ferir-me explodindo em meu íntimo. Deitei-me no chão gelado e fitei o teto branco, rogando por coragem para expulsar tudo o que me habitava. Implorando a forças superiores para ser forte o suficiente. O silêncio me apavorava aos poucos.

De repente, as batidas na porta ecoaram pelo espaço pequeno. Droga. Ouvi a voz de minha mãe, questionando se eu estava bem. Apanhei o ultimo vestígio de alto controle que me restava e respondi. Não desejava responder seus questionamentos sobre o porque de minha tristeza repentina. Ela nunca foi capaz de aliviá-la. Sua capacidade de entendimento a respeito delas era escassa. 

Finalmente, guardei tudo no fundo de meu íntimo e levantei dali. Entrei no chuveiro e deixei que a água fria anestesiasse o meu peito. Resolvi procurar acender uma pequena luz em mim. 

domingo, 14 de outubro de 2012

Palácio de Gelo


O palácio de gelo estava vazio. Suas paredes cinzentas pareciam mais sólidas do que nunca. Cristais de gelo pendiam do teto. Olhei em volta e, de repente, constatei a figura que dançava sozinha. O vestido fluído balançava de um lado para o outro conforme seus passos a guiavam.

Olá? – Gritei. Minha voz ecoou pelo lugar e os cristais tilintaram num som trouxe um presságio de morte. – Sabe como eu posso sair daqui? – Tentei novamente e pude ouvir o eco devolver minha voz aguda. A garota parara de dançar. Aproximei-me devagar e constatei o quanto seu cabelo era curto. Os ombros a mostra deixavam claro seu estado de magreza. Ela se virou lentamente e me fitou por trás de sua máscara dourada. Um silêncio sepulcral se instalou sobre nós, quebrado apenas pelo tilintar dos cristais no teto.

- Você sabe como. – Ela disse finalmente, sua voz me soando familiar. Voltara a se balançar no mesmo lugar. As mãos desajeitadas traçavam círculos em volta de si. Me aproximei mais ainda daquela figura esguia e segurei em uma de suas mãos.

- Eu realmente preciso sair daqui. – implorei sentindo seus dedos finos se entrelaçarem aos meus. Senti sua mão gelada me passar uma estranha corrente de energia. A garota se afastou de mim. Correu na ponta dos pés e cochichou com as paredes. Emergira dali mais uma garota. E outra. E mais outra. Olhei em volta e já totalizavam sete. Todas rumaram até mim, cada uma usando uma máscara diferente. A atitude seguinte me pareceu estranha. Fui laçada por um abraço coletivo que não durou muito.

A garota inicial, com sua máscara dourada, destacou-se entre elas e se dirigiu até mim. Sua voz suave me envolveu como uma bela canção. “Só uma poderá sair daqui”. Apontou para si, para mim e para as outras garotas que agora dançavam. Respondi com toda a certeza que seria eu. Ela me fitou longamente. “Tem certeza? Porque se for você a que irá sair daqui, nada mudará!” Confusa, encarei-a por longos minutos. Então, vi o vislumbre do meu próprio sorriso brotar em seus lábios e a compreensão me golpeou. Sabia que, se eu tivesse de ficar ali, deixaria de existir. Qual escolha eu deveria tomar? 

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

.


Eu, sombria e cinzenta, perseguia-me durante a caminhada nevoenta. Preocupei-me apenas em fugir de mim. Percebi, deveras tarde demais, que entregar-me a ti e provar do amor seria a redenção de minh'alma. 

Me and Myself


Mergulhou em si,
Moveu-se.
Encontrou a si,
Perdeu-se.
Abriu sua caixa
Revelou seus segredos
Provou do veneno
Tingiu-se de cinza
Faleceu ali.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

To Build a Home


No céu, um manto de nuvens negras anunciavam a proximidade de chuva forte. Eu rumava sem destino pelas ruas desertas, a neblina habitando cada canto dali, imersa nos meus próprios pensamentos. Sonhei acordada com a proximidade dela. Um ser quase intocável. Buscava arrancar sem resultados tudo que me habitava. 

Tentei inutilmente minar os meus defeitos na ânsia de acertar e ali estava eu, cometendo incontáveis erros e me punindo por eles. Novamente. De novo. Contemplei as cicatrizes que existiam em meu braço e desejei que todas elas desaparecessem junto com toda aquela névoa fria. Acariciei o novo corte feito, antes da minha fuga, e o vi gotejar no meu cardigã branco. Uma mancha vermelha surgira ali.

Meus pés rumaram para o café mais próximo. Aquele tão conhecido por mim. Com os joelhos quase cedendo, subi a estreita escadaria e sentei numa mesa no canto do ambiente. Lisa me avistou ao longe e caminhou até mim cautelosamente, o caderninho de pedidos em mãos. Ao parar ao meu lado, senti os seus olhos se arrastarem sobre mim e pararam na mancha de sangue em meu cardigã.

- Ahn... O que vai querer? - Deixou escapar com a voz fraca.

- Só um café! - Respondi fitando a rua lá embaixo ser engolida pelos primeiros pingos de chuva. 

- Você... está bem? - Ela me perguntou, fazendo menção de tocar meu casaco manchado. Afastei meu braço das mãos dela e a fitei intensamente.

- Eu só quero o meu café, Lisa - falei acidamente - não vim aqui pra falar com você, se é isso que está pensando!

- Eu não pensei em nada! - Ela falou. Senti que estava a ponto de chorar. Meu coração pulsou intensamente e um nó foi atado em minha garganta. Deixei que as palavras me escapassem antes que eu pensasse duas vezes em pronunciá-las.

- Ótimo! Então não seria um problema pra você me conseguir um café, sim? - Voltei a encarar a rua. Lisa deu meia volta e foi até o balcão com o pedido anotado. Mergulhei em minhas próprias lembranças enquanto a chuva aumentava, arrependendo-me no segundo seguinte.

- LISA! POR FAVOR! ABRE ESSA PORTA! - Eu gritava para a porta fechada do apartamento dela. Vários vizinhos já colocavam as cabeças para o lado de fora a fim de olhar o ocorrido.

- VAI EMBORA! JÁ FALEI O QUE TINHA PRA FALAR COM VOCÊ! - Escutei a voz agressiva dela gritar do lado de dentro do apartamento,

- Ele não te ama como eu amo, Lisa! Eu quero estar com você, acordar ao seu lado, dormir do seu lado. Por favor, eu te imploro, não faz isso comigo! - Ajoelhei no meio do corredor, sentindo meu corpo estremecer e as lágrimas escorrerem pela minha face e descansarem em meus lábios. O tempo chuvoso havia encharcado minhas roupas durante minha ida até ali.

Lisa abriu a porta e fitou meu corpo ajoelhado em frente a sua porta. Os cabelos ruivos estavam presos num  coque perfeito. Vestia calça moletom e blusa de manga.

- Eu o amo, Effy! E nada mais importa. Portanto, levanta daí e volta pra casa. E leva a droga do seu amor com você! Eu não o quero! - Ela falou me encarando. Seu olhar queimava. Suas palavras me feriam. 

- Você... você... disse que me amava! - As palavras eram ditas com dificuldade. Meu coração parecia ter parado de bater.

- Eu menti. - Ela disse, fechando a porta em seguida. Escutei a chave girar e os passos dela se distanciarem.

- NÃO! NÃO! LISA! LISA! POR FAVOR! - Esmurrei a porta. Todos no sétimo andar me observavam.

- Seu café! - Me assustei com aquele sussurrar repentino. A voz de Lisa me arrastou de volta para a realidade. De volta para o ambiente com mesinhas e cortinas quadriculadas. Ainda chovia. 

- Obrigada! - Respondi secamente, puxando o café para mais perto e tomando um gole. Senti a bebida quente me aquecer por dentro. Lisa exitou durante alguns segundos e sentou na cadeira defronte mim. Levantei os olhos e vi que ela me olhava com expectativa. 

- O que foi isso no seu braço? - Ela perguntou.

- Não é da sua conta! - Respondi.

- Queria conversar com você! - Sua voz falhou.

- Não é do meu interesse. - Bebi o resto do conteúdo rapidamente. Tirei do bolso uma nota de dois reais, depositei sobre a mesa e me levantei. Lisa levantou também e tentou segurar meu braço. Me distanciei e desci as escadas. Os pingos de chuva tocaram meu corpo. Pensei em voltar pra casa e me dei conta que não faria diferença. Meu coração continuaria doendo e a imagem de Lisa me perseguiria aonde quer que eu estivesse.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Breathe - Parte 2




O amanhecer declarou que o resto da manhã seria gélida. A garoa fina caia lá fora. Puxei a coberta e me enrosquei na cama para saciar a minha fome de calor. Busquei o corpo de Freja para aquecer-me um pouco mais, entretanto descobri que ela já levantara.Venci a preguiça e escorreguei para fora da cama. Calcei a pantufa de coelho que Freja me dera, em seguida, vesti meu moletom cinza e rumei pelas escadas, escutando o tilintar dos talheres na cozinha.

- Bom dia, Mel! – Freja lançou-me um sorriso satisfeito e apontou para a mesa de café que ela arrumara. Sorri abobalhada. Ela jazia sentada sobre a mesa, trajando apenas uma calcinha.  – Fiz panquecas!

- Não estais com frio? – Perguntei dando lhe um beijo e sentando na cadeira mais próxima a ela.

- Já passei por frios piores! – Ela apanhou a camiseta (acreditei que havia tirado antes de eu descer ) e vestiu-a. Apanhei o prato de panquecas e comecei a comer. Freja me serviu um café fresco e acrescentou leite.

- Vou ficar mal acostumada assim! – Sorri. Freja me beijou os lábios. Suas mãos deslizaram pelo meu pescoço até chegarem  ao meu colo. Freja abriu lentamente o flash do meu moletom enquanto seus beijos não saciavam minha vontade dela. Acariciou meus seios e me puxou para que eu levantasse enquanto ela descia da mesa.

- Posso terminar meu café da manhã? – Perguntei, interrompendo nosso beijo e sorri. Ela já se livrava do meu moletom e acariciava minhas costas.

- Não! – Ela respondeu enquanto voltava a beijar-me. Tirei a camiseta que ela acabara de vestir. Sentei no balcão da cozinha e encaixei Freja entre minhas pernas. Enquanto ela puxava meu cabelo e eu arranhava suas costas, nosso beijo se tornou mais urgente. Senti os lábios dela descerem para o meu pescoço e minha pele ser mordiscada, chupada e acariciada. Meu corpo estremeceu enquanto todos os meus pelos eriçavam-se. Desci do balcão e forcei-a a deitar no chão enquanto eu me depositava sobre ela. Encaramo-nos durante alguns segundos e vi os olhos castanhos dela brilharem. Desci meus beijos pela sua barriga enquanto apalpava os pequenos seios dela. Desci minhas mãos e acariciei sua cintura. Encarei-a e vi que ela me observava. Voltei a beijar-lhe os lábios enquanto brincava com o elástico de sua calcinha. Freja parecia não querer esperar, muito menos, queria que eu assumisse o papel que sempre foi dela. Com quase nenhum esforço, tendo ela vantagem por ser mais alta, Freja depositou-se sobre mim e voltou a me beijar. Suas mãos arrancaram minha calcinha e seus dedos me invadiram. De repente, senti todo o ar se esvair pelos meus pulmões. Minha respiração ficou entrecortada, minhas unhas fincaram-se nas costas brancas dela e senti o êxtase se espalhar pelo meu corpo. Permanecemos ali, deitadas no chão frio, apreciando a companhia uma da outra. O silêncio pairava no ar. Nenhuma palavra precisava ser dita.

- Quer mais café? – Freja perguntou sorrindo. Gargalhei e me levantei.  Apanhei a xícara de café e o resto das minhas panquecas enquanto ela levantava-se e anunciava que ia tomar banho. Sorri e pensei na saudade que me possuía enquanto ela estava fora. Entre os devaneios de meus pensamentos, escutei as batidas na porta. Vesti minhas roupas e sorri ao ver que eu continuava de pantufas. Levantei e rumei até a entrada da casa me perguntando quem seria aquela hora da manhã. Ao me dar conta de quem era, minha expressão era de perplexidade. Ela não deveria estar aqui.

- Mel, eu precisava te ver! – Kate sussurrou, seus olhos verdes me encararam intensamente.

- Freja está aqui, pelo amor de Deus, vai embora! – Implorei enquanto fechava a porta, Kate me impediu.

- Só me diz quando eu posso vir! Quando eu vou poder ficar aqui com você. – Ela perguntou.

- Amanhã a noite! Freja vai voltar pra casa e buscará o resto de suas coisas!

- Então o que você me disse ontem pela manhã era verdade? Ela virá mesmo morar com você? – Kate me olhou com aquele olhar que fazia meu coração amolecer.

- Sim, virá! Mas continuaremos a nos ver! Amanhã, as 20 horas, aqui na minha casa. Não se atrase! – Segurei seu rosto e beijei-lhe os lábios. Em seguida, fechei a porta. A sensação de culpa já não existia mais.